INARA: Capítulo 16 – O Casamento

 

No Rio de Janeiro o casal passava os dias felizes fazendo muitos passeios turísticos. A virada do ano se aproximava e eles preparavam-se para uma grande festa de reveillon, que aconteceria no Arpoador. No dia da festa, ao entrarem no apartamento, a amiga recebeu-os feliz por conhecer a paulista pessoalmente. Inara observava tudo com cuidado. O apartamento era lindo, de frente para o mar, com um visual incrível da praia. Os convidados iam chegando e cumprimentavam-se alegremente. Os amigos de Renato admiravam-se por ele ainda estar com a mesma garota. Nunca o tinham visto com uma por tanto tempo e sendo apresentada como namorada. Ele fazia questão de apresentá-la a todos que ainda não a conheciam. Chegando a hora da virada, Renato conduziu a namorada até a varanda, levando consigo duas taças de champanhe. Após a empolgante contagem regressiva, em seguida ao beijo apaixonado, envolvidos pelos sons da queima de fogos, da música alta e do burburinho empolgado dos convidados, Renato chegou bem próximo ao ouvido dela e perguntou:
– Você quer se casar comigo?
Tomada de surpresa, ela se afastou. Não esperava por esse pedido tão cedo. Não tinham tocado nesse assunto antes. Estavam vivendo um dia de cada vez como haviam combinado. Sentindo-se feliz, olhando firme nos olhos dele, desejou que aquele momento fosse congelado, como se posassem para uma foto.
Renato, aflito por ela não ter respondido imediatamente, perguntou:
– Você me ouviu? Eu acabo de te pedir em casamento!
Inara, com a voz embargada, segurou firme com as duas mãos a cabeça de Renato trazendo-o ainda mais para perto do seu próprio rosto e respondeu baixinho:
– Com você eu caso, hoje, amanhã e sempre!
Renato deu um pulo e um soco no ar, gritando:
– Repete, quero ter certeza do que ouvi.
Ela repetiu. Em seguida, com os braços esticados para fora da varanda, como quem quisesse anunciar ao mundo, ele gritou:
– Uhuuu! Vamos nos casar! E será mais rápido do que vocês podem imaginar. – voltou-se para ela e selaram a decisão com um beijo longo e apaixonado.

Dali para frente, tudo aconteceu muito rápido.  Decidiram que Inara se mudaria para o Rio após o casamento. Renato tinha bom salário, pois trabalhava como Analista de Sistema em duas grandes empresas do Rio, uma estatal e outra privada. Ela não precisaria trabalhar.
Ainda assustada e feliz com tudo, refletiu e comunicou sua decisão a ele:
– Renato, eu não quero parar de trabalhar. Vou me sentir mais confortável se conseguir um trabalho de professora de Música em alguma escola particular aqui do Rio. Não tenho o desejo de virar dona de casa. Ele concordou:
– Tudo bem, mas não tenha pressa. Depois do casamento, você sai com calma para procurar. Meu irmão Celso poderá te acompanhar. Você não conhece bem o Rio e acho perigoso andar por aí sozinha.
A preocupação de Renato, além da segurança, tinha também um componente de ciúme. Temia que a namorada bonitinha, andando sozinha pela cidade, chamasse a atenção e fosse abordada por outro carioca malandro. Inara concordou e assim ficou combinado.

Renato decidiu que deixaria o apartamento que dividia com o amigo em Copacabana. Alugaria um outro, para onde se mudaria e Inara se juntaria a ele após o casamento.

No dia seis de janeiro, portanto seis dias após o pedido de casamento, eles saíram para visitar uma loja de móveis. Queriam pesquisar os preços do mobiliário para o novo lar. Ao chegarem à seção de móveis de quarto, Inara viu um espaço decorado que lhe agradou muito. Os móveis eram em cerejeira no estilo colonial.
– Fofo, – era o apelido que ela o chamava – olha que lindo este quarto! – exclamou ela.
Ele, à frente do vendedor, após observar os móveis, jogou-se na cama, deitou e cruzou os braços por de trás da cabeça e com os pés também cruzados posicionando-se confortavelmente como se estivesse em sua casa, perguntou ao vendedor:
– Quanto custa o pacote todo? Cama, colchão e mesas de cabeceira? O rapaz, rindo da displicência e espontaneidade do cliente, falou o valor. Renato, sem sair da posição em que estava, olhou para a namorada e perguntou:
– É este que você quer, Fofa? – ele também passou a usar o mesmo apelido para ela.
– Sim, está lindo, adorei! – respondeu animada.
Olhando novamente para o vendedor, Renato disse:
– Vendido!
– Mas como?! Nós não temos ainda onde morar e você já vai comprar os móveis? Onde vai mandar entregar? – perguntou ela surpresa.
– Não se preocupe com isso.
Renato deu um pulo da cama, ficou em pé, olhou para o vendedor novamente e completou:
– Vamos. Vou pagar agora e esta semana ainda, eu ligo para dar o endereço da entrega.
Olhando para ela, tomou sua mão e disse:
– Fofa, agora vamos almoçar, estou com fome.

No sábado seguinte, passaram pelo bairro de Botafogo, onde Renato disse ter apartamentos com preços mais acessíveis para morar do que Copacabana e Ipanema. Na rua Paulo Barreto, esquina com Mena Barreto, avistaram um prédio novo, moderno e bonito. No jardim do edifício havia uma placa: “Aluga-se”.
Renato achou uma vaga para o carro logo à frente. Estacionou, desceram e foram visitar o imóvel.
O apartamento tinha dois dormitórios, com uma varanda na sala, janelas grandes, muita luz natural, mas a vista dava para o cemitério São João Batista.
– Não é a vista do motel Vip’s, né, Baixinha? Mas te garanto que esses vizinhos não incomodam. – disse ele brincando. – e continuou – Quando quisermos apreciar vista bonita, iremos ao Vip’s novamente.
Acho este apartamento amplo, confortável e o valor do aluguel é justo. Você acha? Só alugamos se você gostou, senão procuramos outro.
Inara aprovou a escolha e saíram dali com o apartamento alugado. O único que visitaram.

– Nossa, tudo está acontecendo tão rápido que até me assusto! – exclamou a jovem ao entrar no carro.
– Assim é que gosto. – disse ele. E por falar nisso, precisamos contar a teus pais. Vamos viajar pra São Paulo no próximo fim de semana e de avião. Deixamos o seu carro aqui, vai ser um bate e volta.
Inara não tinha tido coragem de contar aos pais por telefone tudo o que estava acontecendo. Eles não entenderiam. Teria de ser pessoalmente.

Na segunda-feira, quando Renato saiu para o trabalho, Inara e Celso, o futuro cunhado, foram a algumas escolas em Ipanema, em busca de vaga para professora de Música. Com enorme satisfação, ela encontrou duas escolas que se interessaram pelo seu currículo e marcaram entrevistas.
Alguns dias depois, estava contratada pelas duas escolas.
Renato admirou-se pela rapidez com que ela conseguiu emprego e ficou satisfeito por ela.

Como o combinado, no final de semana, viajaram para São Paulo.
Renato convidou a família da jovem para jantar e, no restaurante, formalizou o pedido de casamento. Após o consentimento do pai, o carioca falou:
– Ainda bem que o senhor concordou, pois o apartamento onde vamos morar já está alugado e os móveis do quarto comprados. Ia me dar prejuízo, caso não permitisse o casamento.
Todos riram. O pai, ao ouvir, a palavra quarto, engoliu em seco e abaixou a cabeça. A mãe e a irmã estavam sorridentes e felizes pelo casal.
Ao sairem do restaurante, Inara falou rapidamente com o jovem carioca:
– Não ligue, Renato, meu pai é muito protetor e ciumento. Deve estar é chateado, pois são duas notícias ao mesmo tempo e ele não esperava: casamento e a minha mudança para o Rio. Mas ele vai relaxar. Percebo nos olhos o quanto ele já gosta de você, apesar de estar roubando sua filhinha.
Naquela noite, quando todos preparavam-se para dormir, a mãe entrou no quarto dela, sentou-se ao seu lado na cama e perguntou:
– Por que essa pressa de se casarem? Por acaso você está grávida?
– Claro que não, mãe. – afirmou Inara, sentando-se na cama e sentindo-se culpada por não estar casando virgem, como havia prometido a si própria, justamente para não correr o risco de uma gravidez e consequentemente decepcionar os pais.
A mãe, sentindo-se mais tranquila, deu boa noite e saiu do quarto. A filha apagou a luz, virou-se para o canto. De repente, num pulo, sentou-se novamente, acendeu a luz e pensou: Meu Deus, agora que me dei conta. Quando foi minha última menstruação? Já não me lembro mais. Será que eu estou grávida? Não, não deve ser. Acho que a menstruação deve estar atrasada como já aconteceu outras vezes.  Apagou a luz, deitou novamente e dormiu tranquila.

No dia seguinte, com tantos afazeres, estenderam a estada em São Paulo por mais dois dias para irem ao cartório, escolher a igreja, fazer lista de convidados, etc. A data foi marcada. Eles se casariam no dia 24 de março de 1979.

Antes de voltar para o Rio, a jovem paulista tinha de fazer a parte mais difícil naquele momento: pedir demissão do Colégio Porto Seguro, onde amou trabalhar nos últimos anos.
Os diretores sentiram-se tristes por ela deixar a instituição, mas compreendendo a situação, parabenizaram-na pelo casamento, desejando felicidades ao casal.
Ao deixar os portões da escola, ela olhou pelo vidro de trás do carro do pai, que Renato dirigia, e chorou soluçando. Renato, assustado, estacionou o carro imediatamente, desligou o motor, abraçou-a e perguntou:
– Mas o que houve? Por que você está chorando assim?
– É apenas emoção, Fofo. Sinto um misto de tristeza e alegria. – explicou ela enxugando as lágrimas e tentando se recompor. – Entrei aqui e as pessoas me confundiam com outras alunas. Eu não tinha a menor experiência. É a maior e melhor escola do Brasil. Nela eu aprendi tudo e venci muitos desafios, graças ao dr. Binelli, que resolveu dar a chance a uma jovem professora conterrânea. É só emoção e gratidão que sinto. Tranquilo, ja passou! Vamos embora.
O rapaz, respirando aliviado, deu a partida no carro e voltaram para a casa.
Com tudo resolvido, voltaram ao Rio e compraram o restante dos móveis.

Inara explicou aos diretores das escolas do Rio em que havia sido contratada, que iniciaria logo após o casamento e eles concordaram.
Ao final das férias, Inara voltou a São Paulo, para dar continuidade aos preparativos do casamento, vestido de noiva, enxoval…
Retornou às aulas, como havia combinado com os diretores do colégio Porto Seguro. Trabalharia durante o mês de fevereiro, para que eles tivessem tempo de contratar outra professora de Música para  substituí-la.

Dias depois, Inara lembrou que a sua menstruação continuava atrasada. Preocupada com a possibilidade de gravidez, pensou: – Preciso dividir isso com Renato. Bem que eu temia que isso pudesse acontecer. Também, eu e ele nunca tomamos nenhuma precaução ou falamos sobre o assunto.
Naquela noite, ao telefone, contou a ele sua preocupação. Imediatamente Renato tomou uma decisão:
– Vamos fazer assim: Esta semana você vem ao Rio, ao invés de eu ir para São Paulo. Aqui fazemos os exames e já teremos certeza se você está grávida ou não.
– Mas, Renato, e se eu estiver? Como vai ser? Meus pais ficarão decepcionados comigo. – comentou ela preocupada.
– Inara, não se preocupe, em breve estaremos casados. Não precisamos contar a eles se o exame confirmar a gravidez. Só ficarão sabendo depois do casamento. Garanto que vão gostar de ter um netinho- afirmou ele.
– Mas pense bem, nos mal nos conhecemos. Vou mudar para o Rio de Janeiro, iniciar trabalho em duas escolas, vida nova de casados, tanta coisa para me adaptar ao mesmo tempo. Não acho que seja a hora certa para ter um filho.
– Inara, vem pra cá e aqui conversamos. – encerrou Renato a conversa.

O colégio encontrou uma professora substituta e Inara pôde viajar para o Rio durante a semana.
Lá chegando, após os exames, a gravidez foi confirmada. Ela ficou nervosa e assustada. Renato ficou feliz e a abraçou. Saíram da clínica e foram para um restaurante para tomar uma decisão.
Depois de muito conversarem pesando prós e contras, em comum acordo, optaram por fazer o aborto.
Para sua surpresa, a paulista descobriu que era algo comum entre as amigas de Renato. Ele comentou sobre várias que já tinham feito abortos. Com uma delas, ele conseguiu o endereço de uma clínica. Marcaram a consulta e decidiram pelo procedimento.
Na manhã do dia marcado, antes de saírem para a clínica, Renato perguntou:
– Tem certeza de que você quer fazer isso? Podemos ter esse filho se você quiser, eu não me importo. Para tudo dá-se um jeito.
– Nós já conversamos sobre isso. Temo pela decepção que darei aos meus pais. E depois, tem toda a adaptação à vida nova que comentamos. Vamos em frente! A decisão está tomada – afirmou Inara.
– Como você quiser, Fofa. Estarei ao seu lado o tempo todo.
E assim fizeram. Alguns dias depois, recuperada, mas um pouco triste por ter de passar por aquela situação, Inara voltou a São Paulo. Os pais nunca souberam do aborto.

O dia do casamento chegou. Renato foi para um hotel com os amigos para se arrumar e Inara, no horário marcado, saiu de casa lindamente vestida de noiva, acompanhada pelo pai num carro grande, luxuoso e com motorista.
O pai, no banco de trás ao lado da filha, olhava para ela orgulhoso e ao mesmo tempo nervoso. Era o casamento de sua primeira filha. Ele sempre foi muito emotivo e não disfarçava o que sentia.
Chovia muito naquele dia. O trânsito estava lento. O pai não tirava os olhos do relógio. Estava preocupado com o atraso. A noiva estava serena, segura e feliz, a caminho de unir-se ao grande amor de sua vida.
– Você não está nervosa? Normalmente todas as noivas ficam no dia do casamento. Com esta chuva e este trânsito…Olha como estou transpirando. Parece até que você tomou calmante, tomou?! – perguntou o pai visivelmente ansioso.
– Pai, não tomei nenhum remédio. Estou calma, porque estou feliz. Tenho certeza de que vou me casar com Renato e também fazê-lo feliz. Ele é o homem da minha vida e eu, a mulher da vida dele. Fique tranquilo, até porque noiva pode e deve chegar atrasada. – respondeu Inara, brincando tentando fazer com que o pai ficasse mais calmo.
– Mas do pouco que conheço do seu futuro marido, ele deve estar suando em bicas de nervoso neste momento. – retrucou o pai.
– Pois ele que se acalme e espere! Já já chegamos. Olha, que bom! A chuva já está passando – disse ela, olhando pela janela e segurando firme a mão do pai.
Lá fora um sol tímido aparecia entre as nuvens menos carregadas emolduradas por um discreto arco-íris.
À porta da igreja do Colégio Santo Américo, ao som da música “Jesus Alegria dos Homens”, conduzida pelo pai, ela avistou o noivo. Estava ele no altar. Lindo num terno cinza claro, camisa branca e uma gravata azul claro. Nas mãos, tinha um lenço branco todo amarrotado, onde enxugava, com insistência o suor que escorria pela testa.
Enquanto desfilavam pela passarela, a noiva sorrindo, observava calma e feliz todo os amigos e convidados presentes na igreja.
Renato, ao recebê-la das mãos do pai, beijou-a na testa e disse baixinho:

Você está linda e faz com que hoje seja o dia mais feliz da minha vida!

Ela sorriu. O pai retirou-se e, com os olhos cheios de lágrimas, juntou-se à mãe que o esperava no altar.

Próxima semana
Capítulo 17
Paulistas X Cariocas – As diferenças culturais

 

3 comments on “INARA: Capítulo 16 – O Casamento”

  1. Juçara Paulucci disse:

    Decisão difícil feita pela Ynara quanto o aborto!
    Talvez eu no seu lugar teria feito a mesma coisa!
    A vida segue!

  2. Iracema disse:

    Muito curto o capítulo.

    1. Yara disse:

      Haha esse foi um dos mais longos ?

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