INARA – capítulo 15 – Pane no avião

Inara e Renato estavam a caminho do motel Vip’s, no Rio de Janeiro.
Passaram antes por uma farmácia e compraram os remédios que Renato precisava para melhorar do mal-estar que sentia.
– De vez em quando tenho crises de labirintite. Mas vai passar. – disse ele.
E ali mesmo na farmácia, tomou alguns comprimidos.

O  motel ficava localizado na avenida Niemeyer, a caminho de São Conrado, no alto de uma curva, acima de um rochedo, à beira do mar. Ao entrarem na suite, Inara se impressionou com a beleza do espaço e, principalmente com o visual lá de fora. A noite estava linda, iluminada pela lua cheia e pelas janelas acesas dos prédios da praia de Ipanema. O mar parecia um quadro negro pincelado de cores prateadas refletindo a luz da lua.
Abraçados ficaram admirando aquele visual por um longo tempo.
– Agora deite-se e descanse um pouco para você melhorar. – disse Inara, que percebeu o rosto pálido e as mãos geladas de Renato.
– Eu deito, mas você deita comigo. Assim, descansamos abraçadinhos. – completou ele.
Com todo aquele cenário, paisagem indescritível, com um companheiro irresistível, inteligente, espontâneo, carismático, alguém que a fazia esquecer tudo e ele precisando deitar-se para sentir-se melhor, Inara não racionalizou mais. Deixou-se levar pelo coração e pelos hormônios. Ela também o desejava.
Sabia que ao deitarem-se, não seria só para descansar.
Foi a primeira vez que passou a noite dormindo nos braços de alguém. Mas este, não era qualquer um, era o homem a quem ela não quis resistir.

Inara esteve noiva por três anos e seguiram à risca a regra: a de que ela queria casar-se virgem. Os noivos frequentavam motéis para desfrutar de momentos mais íntimos, mas ele nunca insistiu em passar do ponto por ela estabelecido. Também nunca dormiram juntos, fosse num motel ou em qualquer outro lugar.

No dia seguinte, Inara e Renato acordaram perto da hora do almoço. Os dois estavam radiantes de felicidade. Ele abriu as cortinas amplas do quarto e a levou até a janela.
– Venha admirar o espetáculo do visual lá fora. Durante o dia fica ainda mais bonito. – exclamou Renato.
O cenário enchia o quarto de luz. O sol brilhava fortemente, não havia uma nuvem no céu. O mar estava azul bem claro, as espumas das ondas pareciam rendas batendo contra o rochedo logo abaixo da janela onde estavam.
Inara apreciando tudo aquilo, depois de alguns instantes, disse:
– Que espetáculo. Que cidade maravilhosa!
E em seguida, perguntou:
– Deve custar caro se hospedar aqui, não?
– Comigo é assim, minha Baixinha, calça de veludo ou bunda de fora!
E você merece tudo isto. Tenho certeza que nunca mais vai esquecer deste dia e este lugar. Nem eu!
Mais alguns minutos de silêncio e contemplação daquela paisagem paradisíaca, e ele continuou:
– Inara, sabe o que eu estava pensando? Nunca poderia imaginar que você era virgem. Aliás, você foi muito mal cantada. Só isso pode explicar. E pensar que foi noiva por tanto tempo. Esse paulista era muito fraco pra você. Não foi à toa que você deu um pé no traseiro dele. – falou o carioca brincando, sem deixar de abraçá-la.
Ela virou-se de frente para ele, olhou nos seus olhos e sorriu concluindo:
– Pois sabe que tenho de concordar com você. Ou, quem sabe, eu não tenha gostado de alguém até hoje tanto quanto gosto de você.
– Isso aí, fechado. Fico com a segunda opção, minha pequena paulista.
O carioca não tinha mais nenhum sintoma do mal-estar anterior. – observou Inara.
– Nunca melhorei tão rápido. Você foi o melhor remédio que já tive até hoje. Não posso mais ficar sem você. Por isso, daqui pra frente, vou te visitar todos os finais de semana em São Paulo.
Ele silenciou por alguns instantes, olhou nos olhos dela e perguntou:
– Quer ser minha namorada?
Inara sem titubear, disse sim.
Ao final do dia, saíram do motel e foram para o apartamento em que ela estava hospedada. Ao chegar, Renato falou:
– Volto para te buscar daqui duas horas. Desta vez vamos fazer “à la paulista”. Qual o número do seu apartamento? Eu subo e toco a campainha. Não quero ter outro desencontro.
Ela disse o número e despediram-se. Ao abrir a porta do apartamento, a amiga  rapidamente veio até ela.
– Menina, fiquei preocupada com você, mas imaginei que passaram a noite juntos. Foi isso? Venha, conte-me tudo!
– Marisa, a conexão que tivemos foi algo mágico, muito forte, nem consigo te explicar. – disse Inara, dirigindo-se ao quarto para se arrumar.
– Daqui a pouco ele volta para me buscar.
– Mas já?! – espantou-se Marisa.
– Sim, queremos ficar juntos o maior tempo possível. Amanhã já vamos embora, né? Só de pensar dói o coração. Quem diria que vindo ao Rio para descansar, eu encontraria este homem? Agora vou voltar para São Paulo com o coração partido.

Duas horas depois, Renato tocou a campainha. Entrou, conversou um pouco com Marisa, convidou-a para sair jantar com eles. Por educação, é claro, e a amiga gentilmente recusou.  Despediram-se e saíram.
Renato escolheu um restaurante em Copacabana onde ele ia sempre com os pais antes de eles terem se separado. Ao chegarem, o garçom o reconheceu. Cumprimentaram-se alegremente e foram conduzidos à mesa na qual Renato e sua família costumavam sentar-se.
– Estava com saudades deste lugar. Há muito tempo não vinha aqui. Você me trouxe uma sensação gostosa e nostálgica da minha família. Vinha aqui com eles quase todos os finais de semana – disse Renato com um ar de tristeza.
Ali ele contou algumas partes não felizes de sua vida familiar.
Após o jantar e em comum acordo, voltaram ao motel Vip’s. Desta vez não dormiram no local. Ela queria voltar para casa na mesma noite para ir à praia com a amiga, na manhã seguinte, e dar um pouco de atenção à companheira de viagem, que tinha sido abandonada.
– Era para ela ser minha companheira de viagem, mas acabei trocando por você. – explicou Inara.
– Bela troca você fez! – falou Renato em frente à janela, sambando, fingindo tocar um pandeiro.
– Típico malandro carioca? – perguntou Inara enquanto ele dançava.
– Carioca babão, apaixonado pela paulista, isso sim. – e a abraçou para dançarem juntos.
Mais tarde ele a deixou em casa.

No dia seguinte, pela manhã, Inara e Marisa foram à praia para dar um último mergulho, antes de irem embora.
Voltaram para casa, arrumaram as malas, deixaram o carro na locadora e foram para o apartamento de Renato. Mais tarde ele as levaria para o aeroporto Santos Dumont.
No apartamento os três conversaram animadamente. Na hora de irem embora, Renato a chamou no quarto. Os abraços e beijos de despedida tinham ao mesmo tempo o sabor da calorosa paixão, mas também de tristeza. Ambos se emocionaram. Não queriam despedir-se. Antes de voltarem à sala, Renato pegou um envelope amarelo grande, deu para ela e disse:
– Aqui tem uma foto minha para você olhar todos dias. Ponha ao seu lado na mesa de cabeceira. Assim não se esquecerá de mim. A sua imagem eu vou guardar na mente, já que não tenho sua foto. Sexta-feira à noite eu chego em São Paulo para passarmos o final de semana juntos e para eu conhecer os seus pais. Não é assim que os paulistas fazem? Ah! Separe umas fotos suas para eu trazer comigo quando voltar.
Ela ia abrir o envelope quando ele a interrompeu:
– Aqui não, você só abre depois que o avião decolar. Sente-se na janela e observe a beleza do Rio de Janeiro até que não o veja mais. Eu vou estar aqui embaixo acompanhando a decolagem, lembre-se disso.
Saíram para o aeroporto. Ele ajudou-as com as malas no embarque e se despediram. Renato ficou recostado na coluna central do saguão do aeroporto, observando-as enquanto se afastavam. Ele estava visivelmente triste.
Assim que o avião decolou e a cidade sumiu do seu ângulo de visão, Inara abriu o envelope. Era uma foto dele, linda. Fotogênico, parecia ainda mais bonito. A fotografia era de corpo inteiro, sentado em um banco de praça despojadamente, com uma maquina fotográfica na mão. O rosto com sorriso charmoso e maroto parecia dizer: “Te peguei”. – Mas pegou mesmo. – pensou Inara.
Junto da foto, havia um bilhete dizendo: “Minha paulista baixinha, faça uma boa viagem, te ligo já já, assim que você chegar. Beijos, Renato”.
Ela se emocionou.
De repente, ouviram a voz do comandante dizendo:
– Estamos tendo uma pane de motor e teremos de retornar ao Rio imediatamente.  Apertem os cintos e permaneçam sentados até o pouso completo da aeronave. Estamos nos dirigindo para o aeroporto do Galeão.
Foi uma comoção geral entre os passageiros. Todos se olhavam assustados, outros choravam e alguns gritavam.
Inara ficou nervosa e o maior medo que sentia era de não ver mais o seu carioca. O comandante não disse mais nada. Ninguém sabia a proporção da gravidade da pane. Alguns passageiros começaram a rezar em voz alta. Outros exclamavam: “Vamos morrer, vamos morrer!”
Aflita ela olhava para a janela e para a foto de Renato. Atordoada, não sabia o que pensar. Marisa, também nervosa, agarrou sua mão e aguardaram em silêncio.
Felizmente, o pouso foi tranquilo.
Levaram os passageiros para uma sala do Galeão, onde esperariam um outro avião que os levaria para São Paulo.
Nessa sala havia dois telefones e quase todos queriam usá-los. Inara correu para a fila e na sua vez ligou para Renato. Ao ouví-la, ele tomou um susto enorme e falou:
– Mas como voltou tão rápido e eu não vi? Fiquei acompanhando a decolagem e vim direto pra casa, pois em quarenta minutos você já chegaria em São Paulo e eu te ligaria. Pane?  Oh, meu Deus! Que bom que pousaram bem de volta. Só faltava eu ter encontrado a mulher da minha vida e perdê-la num acidente de avião. Que alívio, que bom que está tudo bem. Vai me dando notícias. Ligue novamente para dizer que horas vai decolar.
Quando Inara ia ligar para os pais, um funcionário do aeroporto avisou:
– Olha a fila atrás de você. É um telefonema por passageiro.
Ela sentiu-se mal por não ter avisado os pais. Com certeza estariam em Congonhas para buscá-la. Não deu tempo de entrar na fila novamente e avisá-los, pois em seguida os passageiros foram levados para uma outra sala e nesta não tinha telefone.

No voo anterior, chegariam a São Paulo por volta das 20h.
Do Galeão, só foram decolar após as 22h.
O aeroporto de Congonhas fechava todas as noites, portanto o voo foi desviado para o aeroporto de Viracopos, em Campinas.
Ao chegarem lá, Inara correu para o primeiro telefone que avistou e avisou aos pais o que havia ocorrido. Eles já sabiam e explicaram:
– Tínhamos ido buscá-la no aeroporto no horário marcado. Com o voo atrasado, fomos ao balcão de informações para saber notícias. Antes de o aeroporto fechar, tentamos em todos os departamentos possíveis, além do balcão da companhia aérea saber o que tinha ocorrido. Ninguém sabia dizer nada. A única resposta que recebíamos era sempre a mesma:
– O avião decolou, mas não confirmou.
– Mas isso quer dizer o quê? O avião está no ar ou está no chão? –  perguntava o pai já irritado e em voz alta.
– Não sabemos dizer, senhor. – repetiam os funcionários.
– Algo grave aconteceu. – comentavam os pais.
Sem mais notícias, o aeroporto fechado, eles voltaram para casa na esperança de receber um telefonema da filha.
Assim que abriram a porta, o telefone já estava tocando.
Aliviado, o pai correu e atendeu:
– Não, a Inara não está! – e desligou o telefone.
– Era um amigo dela. – disse o pai irritado para a mãe que estava ansiosa por notícias.
Dali a quinze minutos o telefone tocou novamente. E o pai respondia a mesma coisa e desligava.
Meia hora depois, quando o telefone tocou outra vez, o pai disse:
– Rapaz, pare de ligar! Não sei onde está minha filha. Ela decolou do Rio de Janeiro às 20h e até agora ninguém sabe dizer onde esse avião foi parar. Deixe meu telefone livre. Espero receber uma ligação dela a qualquer momento.
O amigo, então, resolveu explicar quem ele era e contar o que havia acontecido com o voo dela.
O pai ouviu o carioca explicar sobre a pane do avião. Aliviado com a notícia, agradeceu e perguntou:
– Mas por que não me disse antes?
E Renato:
– Eu tentei, mas o senhor batia o telefone na minha cara todas as vezes que eu ligava.
O pai se desculpou, desligou o telefone e disse à esposa:
– É um tal de Renato. Disse que é amigo da Inara do Rio. Contou que teve uma pane no avião e que voltaram para o aeroporto. De lá, ela ligou para avisá-lo.
Que alívio meu Deus! Mas…quem seria esse amigo de quem nunca tinha ouvido falar antes? E como que ela liga para contar primeiro a ele e não para nós? Ah, ela vai levar uma bronca quando chegar! Não, não vou dizer nada. Graças a Deus está tudo bem!
A mãe, aliviada, disfarçou um sorriso já imaginando quem seria o tal amigo carioca.
Depois de nove horas de viagem, Inara chegou à sua casa.
Teria sido mais rápido se fosse de carro.
Os pais a abraçaram felizes e a mãe foi logo dizendo:
– Ficamos sabendo da pane por um tal de Renato. Quem é ele? Disse que é seu amigo do Rio. Pensávamos que esse avião tivesse caído. Agora vai, anda, liga para ele, pois está aflito pra falar com você.
Ela correu para o quarto, ligou para Renato e passaram o restante da madrugada conversando. Os dois estavam apavorados e, ao mesmo tempo, aliviados por terem tido a sensação de que perderam um ao outro. Sentiam agora ainda mais forte a vontade de se reencontrarem.

Dali em diante, falavam-se por telefone todas as noites.
No primeiro final de semana, quando Renato viajou a São Paulo, ficou hospedado num hotel. Conheceu a família dela e conquistou todos. Era muito falante e brincalhão. Os pais perceberam o quanto os dois estavam apaixonados.
No dia em que foi jantar na casa de Inara, ao sentar-se à mesa, Renato arrumou, à frente do prato, cerca de seis cápsulas de remédio.
– O carioca está doente? Por que tantos remédios? – perguntou o pai.
– Eu tenho distúrbio neurovegetativo, mas a maioria parte é de cápsulas de vitaminas. – justificou Renato.
nara começou a perceber que o namorado era um pouco hipocondríaco.
Nos finais de semana seguintes ele passou a ficar hospedado na casa dela, e estando mais relaxado, não fazia mais uso de tantos remédios e vitaminas.
Desde então nunca mais passaram um final de semana separados.

Após as festividades natalinas daquele ano, Inara viajou com ele para o Rio de Janeiro, no carro dela, onde passou um mês, usufruindo das férias escolares.
Os pais concordaram que fossem, depois de saberem que ficariam hospedados na casa do pai de Renato, em Niterói, e que Inara teria um quarto só para ela.
O que os pais não souberam é que ela nunca dormiu nesse quarto sozinha.
A caminho do Rio, eles traçaram planos do que fariam naquele mês de férias.
– Prepare-se para grandes aventuras neste mês. Vou levá-la para conhecer Búzios. Um amigo tem uma casa linda lá. Também iremos à praia todas as tardes, após o trabalho. – dizia Renato com largo sorriso no rosto, dirigindo pela Via Dutra, a caminho da cidade maravilhosa.

Às vezes, ela sentia vontade de se beliscar para acreditar como a vida tinha mudado tanto, do dia para a noite e da água para o vinho. Depois de tantos anos sem visitar o Rio de Janeiro, agora era o segundo mês consecutivo, que para lá se dirigia.
E o melhor: era conduzida pelo grande amor da sua vida.

Como será depois destas férias, meu Deus? Até quando vamos resistir apenas aos encontros nos finais de semana? Mas sabe o quê? Não vou pensar nisso. Agora quero viver um dia de cada vez. – concluiu Inara, voltando a conversa animada com o namorado.

Próxima semana:
Capítulo 16
O Casamento

História inspirada em fatos reais, embora alguns eventos, personagens, nomes e locais, tenham sido criados para a composição literária. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência. YG

4 comments on “INARA – capítulo 15 – Pane no avião”

  1. Mazé Marum disse:

    Que venha logo o próximo capítulo

    1. Yara disse:

      Ja ja sai outro. beijos

  2. Katia Gamper disse:

    Não consegui parar de ler!!acho q nem respirei ? maravilhoso ?

    1. Yara disse:

      Que delícia!!! Obrigada Katia por acompanhar. Final de semana tem mais. beijo grande.

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