INARA – capítulo 9 – Coincidência cruel

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Logo após o casamento da melhor amiga, Inara passou a sair com outras colegas da faculdade. Nos finais de semana, à noite, elas passeavam de carro pela rua Augusta. Inara não tinha carro, mas suas amigas sim.

A charmosa Rua Augusta era frequentada pelos solteiros em busca de uma paquera ou de um romance. A rua era famosa, sempre cheia de jovens alegres e descontraídos.

Desciam a rua, de carro ou de moto, da Avenida Paulista até a rua Estados Unidos. Ninguém tinha pressa. Iam parando e conversando com as pessoas dos carros que vinham no sentido contrário.
Todos seguiam o fluxo daquele trânsito com paciência.
Muitas vezes ao chegar no final da rua, faziam a volta e de novo o mesmo trajeto.

Quando as pessoas se conheciam, se houvesse interesse, trocavam os números de telefones, ou então dali mesmo se dirigiam aos bares da região.
As meninas nunca iam à rua Augusta sozinhas e quando aceitavam convites dos paqueras para irem a um bar da região, iam sempre em grupo.

Em um desses passeios, Inara conheceu Flavio, um rapaz louro, com cabelos encaracolados e olhos azuis. A família tinha indústria de maquinário pesado e ele, além de estudar, trabalhava com o pai. Era uma família muito rica.

Flavio tinha um olhar doce, ao mesmo tempo triste. Era cheinho de corpo, não era bonito, mas parecia ser uma pessoa carente, alguém precisando de colo. Inara sentiu vontade de conhecê-lo melhor.

Depois de todo ritual da paquera, bares e telefonemas, passados alguns dias, eles começaram a namorar.
Inara nunca recebeu tantas flores de um namorado até então.
A cada dois dias, ao chegar em casa, sobre sua cama encontrava um buquê de rosas vermelhas acompanhadas de um cartão apaixonado. Ele era  carinhoso e muito romântico.

Flavio tinha um carro novo, grande e luxuoso. Era um Opala amarelo.

Quando Inara ouvia a buzina já tão conhecida, saía à janela para olhar e lá estava o Opala amarelo estacionado.
Flavio descia do carro e dava sinal para ela vir encontrá-lo. Nunca combinava quando ia aparecer. Adorava chegar de surpresa.

Ele a abraçava e dizia:

-Estava com saudade, por isso passei rapidamente para lhe dar um beijo. Meia hora depois, ele ia embora.

Inara ficava surpresa por Flavio estar tão envolvido por ela.
Sentia-se lisonjeada, claro. Só pensava que era pouco tempo de namoro para ele estar assim tão apaixonado.
Mas, quem não gosta de ser paparicada? Ela parou de questionar a situação e até mesmo tentar descobrir o porquê daquele olhar triste de Flavio.

As férias da faculdade chegaram e Inara teve de ir para Angatuba onde passaria um mês com os pais.

Flavio ficou inconformado que nem bem tinham se conhecido e ela teria de se ausentar por tanto tempo.

No dia da despedida, ele a levou para jantar. No restaurante, pediu o número do telefone da casa de Inara, dizendo:

– Assim vou poder falar com você todos os dias.

– Todos os dias? – respondeu Inara – Você não faz ideia quanto tempo leva para completar uma ligação daqui para lá! Cerca de cinco a seis horas, além do que, vai custar muito caro.

Flavio respondeu:

– Não tem problema, ligo bem cedo ao chegar no trabalho e lá aguardarei a ligação completar. Quanto ao valor, pagarei o que for necessário para ouvir a sua voz.

– E se eu não estiver em casa? – disse Inara

– Eu tento novamente no outro dia. Qual o número do seu telefone? – completou Flavio pedindo papel e caneta ao garçom, para tomar nota.

– Não precisa tomar nota, você não vai se esquecer. – disse Inara, meio encabulada.

– Qual o número? – ele perguntou novamente.

– Quatro. – respondeu Inara.

E ele:

– Quatro? – e aguardava olhando para o papel, esperando pelos outros números.

– Quatro e o que mais?

E ela:

-Quatro, só isso.

-Como? O número do seu telefone é “quatro”? Um dígito só?

-Sim, isso mesmo que você ouviu. – respondeu Inara sorrindo.

Ele jamais compreenderia que alguém pudesse ter um número de telefone com apenas um dígito.
A família de Inara tinha sido a quarta família a ter um telefone na pequena cidade.

Ele ficou boquiaberto, estupefato, pensava que fosse uma piada.

Depois das explicações, Inara achou tudo aquilo divertido. Sentia-se como se fosse de outro planeta e eram apenas duzentos quilômetros de distância da capital. Nunca antes tinha dado o número do telefone de sua casa para qualquer pessoa.

No dia seguinte, arrumou as malas, esperou o pai vir buscá-la e viajaram para Angatuba.

Já em casa, por volta da hora do almoço, ela recebeu a ligação de Flavio.
Ele estava feliz em ouvir sua voz. Disse que esperou quatro horas para completar a ligação e que também achou divertido passar o número para a telefonista. Ela também achou engraçado de ter só um dígito. Nenhuma ligação acontecia de imediato. Tinha de passar por diversas telefonistas de várias cidades e esperar a vez em ordem de chegada, até que a ligação alcançasse o destino.

No dia seguinte, o telefonema de Flavio chegou à noite. Nos dias em que ele ligava e não a encontrava em casa, ficava triste e às vezes ligava no mesmo dia novamente.

Dias depois, Inara recebeu a visita dos primos de Taquarituba, onde tinha conhecido Emanuel, aquele moreno lindo de olhos azuis, quem Inara tinha usado para a vingança contra Nelson no baile do clube da cidade. A lembrança daqueles dias a deixou triste.

Os primos a convidaram para passar uns dias com eles em Taquarituba.
Ela gostou da ideia. Naquela noite, avisou a Flavio que iria passar uma semana na casa dos primos e que aproveitaria a carona deles, viajando no dia seguinte.

Flavio prontamente pediu o número do telefone da casa dos tios, mas Inara no momento não lembrava e disse:

– Estarei com os primos, não vamos parar em casa. Alguns dias iremos às fazendas próximas de amigos, vai ser difícil você me achar. Mas olha, daqui a uma semana eu já estarei de volta a Angatuba.

Flavio se conformou e aceitou falar com ela novamente dali a uma semana.

Em Taquarituba, Inara reencontrou os tios, os primos e amigos que não via há algum tempo. Era uma família grande, com treze filhos. Eles moravam em uma casa enorme, sempre cheia de gente e muito animada.

Numa noite, saíram em um grupo de amigos para um bar novo da cidade, onde os jovens se encontravam. O bar era bonito, ambiente festivo, alegre, cheio de gente. Foi uma noite divertida.

Dois dias antes de Inara voltar para Angatuba, resolveram voltar ao mesmo barzinho. Estavam todos sentados em volta de uma mesa. Quase na hora de irem embora, Inara sentiu um toque no seu ombro. Alguém chegou por trás e ela não pode ver quem era. Apenas viu o olhar de admiração da prima Angela, sentada à sua frente.
Sem que tivesse tempo de se virar, sentiu um perfume conhecido, e em seguida uma boca encostou ao seu ouvido, dizendo baixinho:

– Você está cada dia mais bonita.

Inara ficou paralisada, mas o coração disparou. Sabia quem era.

Com dificuldade, levantou-se, olhou para trás e ao ver aquele rosto conhecido, sentiu uma tontura. As pernas bambearam e ela teve de sentar-se novamente.

Era ele, Emanuel. Estava ainda mais lindo do que poderia lembrar.

Ele percebeu que ela estava desconcertada e com um sorriso lindo, ele acariciou os cabelos de Inara, vagarosamente, da testa até os ombros, dizendo:

– Que bom te ver de novo, Inara.

Ela sem ar, ainda sentada, rapidamente pensou: – o que está acontecendo comigo? Por que estou tão nervosa? 

Era um misto de saudade e sentimento de culpa. Não conseguia se mover.
Tudo passava rapidamente por sua mente.

Ela o havia usado para vingar-se do ex-namorado Nelson. Sentia culpa e por essa razão havia terminado seu namoro com Emanuel. Porém, o que não sabia, era que ainda carregava um sentimento tão forte por ele. Recordou o quanto foi doído tentar esquecê-lo.

Finalmente ela se recompôs, levantou e o abraçou. Foi um abraço forte, apertado, ele não queria soltá-la. Beijou sua face várias vezes, sem se preocupar com as pessoas ao redor.

Emanuel a levou para uma mesa próxima. Sentaram-se e ali e ficaram conversando, só os dois, por mais de uma hora. Ele contou que tinha chegado naquele dia de uma viagem distante com os pais. Por isso que ela não tinha visto ele pela cidade antes. Claro que ela havia perguntado por ele, mas ninguém soube dizer. Só sabiam que ele estava viajando.

Já era tarde e Inara tinha de ir embora. Os primos a chamaram.

– Emanuel, agora tenho de ir. – disse ela.

– Não se preocupe. – disse ele à prima -, eu levo Inara para casa em seguida.

Sabendo que ela iria embora em dois dias, ele disse:

– Quero aproveitar para passar com você o maior tempo possível. Pode ser?

Inara nesse instante não titubeou, era seu coração falando mais rápido que sua boca.

– Quero sim, Emanuel, muito. Aliás, eu preciso te contar uma coisa.

Naquele instante, refletiu rapidamente e decidiu que contaria a Emanuel a história da vingança. Se ele a entendesse, talvez desta vez pudessem estar juntos novamente, sem um terceiro na relação.

Timidamente, ela falou:

– Podemos nos encontrar aqui neste mesmo local amanhã à noite.

Emanuel fez um gesto negativo com a cabeça e disse:

– Não, não vamos esperar até a noite. Você vai embora depois de amanhã. Vamos passar esse tempo todo juntos. E agora que sei que você também está morando em São Paulo, perto de mim, vamos nos ver com frequência.
Não haverá mais a distância entre nós.

Inara, estava gelada por dentro. E agora? – pensou. Ele parecia ter decidido o futuro deles. Emanuel nem perguntou se ela tinha alguém. Ele tinha certeza do que queria. E ela queria também.

De repente, lembrou de Flavio – O que faço com ele?

Aflita, ela concluiu: – não vou contar nada a Emanuel sobre Flavio. Assim que chegar em São Paulo, explico a Flavio que não estou apaixonada por ele e não poderei corresponder aos seus sentimentos.

Depois deste reencontro com Emanuel, agora mais maduros, queria poder estar com ele em São Paulo e ter um namoro de verdade. Sentia-se feliz. Há muito não tinha aquele friozinho gostoso na barriga.

Que bom poder sentir novamente o coração bater mais forte por alguém. – refletiu com um sorriso nos lábios.

Emanuel tinha um Fuscão marrom, modelo de carro novo da época. Ele a levou para a casa dos primos. Na porta, beijaram-se apaixonadamente e ele disse:

– Amanhã cedo, às dez horas, eu passo para te buscar.

Ela entrou na casa e contou feliz às primas que estava reatando o namoro com Emanuel. A prima Angela ficou feliz por ela.

Naquela noite Inara sonhou com ele. Acordou mais feliz do que tinha ido dormir. Ainda sentia o sabor dos beijos dele que tinham trocado durante o sonho.

Precisava tomar banho e se arrumar. Queria estar linda para quando ele chegasse.

Por volta das 9h50min ela estava pronta. Sentou-se à mesa do café para conversar com os primos enquanto esperava por ele.

A moça que trabalhava na casa da tia, veio até a cozinha e disse:

-Inara, chegou um rapaz de carro e parou aqui na frente da casa. Ele pediu para chamar você.

Era ele! Chegou dez minutos antes. – pensou Inara entusiasmada.

Correu pela casa até à porta da sala que dava para a rua. Ao abri-la, viu o carro estacionado. Não era o Fuscão marrom de Emanuel. Era o Opala Amarelo de Flavio.

Ela quase desmaiou.

Flavio, à porta do carro, do outro lado da rua gritou:

– Minha linda, não aguentei esperar uma semana, resolvi viajar pra te ver.

Em cidade pequena, tudo era fácil de se achar. Ele sabia o nome dos tios de Inara. Ela não tinha desconfiado da curiosidade dele ao perguntar no telefonema o nome dos tios. Claro, ele já tinha planejado aquela viagem surpresa.

E ainda à porta do carro, ele disse:

– Vim buscá-la um dia antes de você voltar para casa e assim não ter o risco de desencontro. Queria te fazer essa surpresa. 

Ele era o homem das surpresas. – pensou ela desconcertada.

Mas que ironia do destino! E justo agora? No mesmo horário que Emanuel marcou para me buscar?  Ah meu Deus, e ele está prestes a chegar. O que faço agora? – Que coincidência cruel! 

Ela ficou imóvel à porta da casa. Tinha um sorriso da cor do carro nos lábios.

Pela rua de bairro, não passavam tantos carros. Ela só via aquele Opala Amarelo que parecia tomar conta da rua toda. Queria cavar um buraco e nele fazer desaparecer Flavio, carro e tudo mais.

Flavio se divertia com a reação dela.

O melhor amigo dele estava no carro no banco do passageiro. Os dois riram do jeito de Inara. 

O amigo pôs a cabeça pra fora e gritou:

– O que não se faz por um amigo apaixonado, hein? Foram seis horas de estrada, estou quadrado. Você não nos convida para tomar um café?

Flavio, fechou a porta do carro, veio ao encontro de Inara e a carregou no colo, como se ela fosse uma criança.

Nesse mesmo instante, Inara ouviu o barulho de outro carro se aproximando e em seguida parar em frente à casa. Sentiu vontade de levar as mãos aos olhos para não ver o que ia acontecer, mas não deu tempo.

Era o fuscão marrom do Emanuel. E ela, onde estava? No colo de Flavio.

Emanuel pôs a cabeça para fora da janela, olhou por alguns segundos, sem entender direito o que estava acontecendo. Flavio, o amigo e Inara também olhavam para ele. Todos atônitos.
Flávio perguntou a ela:

– Quem é esse cara?

Antes que Inara tivesse tempo para responder, Emanuel acelerou o carro que saiu derrapando, cantando pneus pelo asfalto da rua. Virou a esquina e desapareceu.  

Flavio continuou:

-Que cara doido!

Ele não desconfiou de nada, pelo menos foi o que pareceu. Voltou os olhos para Inara, colocou-a de volta ao chão e disse:

– Menina, estava com saudade. E você?

Ele a abraçava. Inara muda, parecia uma boneca de pano nos braços dele. Flavio pensava que ela estava ainda chocada com a surpresa da sua chegada e achava tudo aquilo divertido.

Foi difícil para Inara disfarçar todos os sentimentos naquele momento. Angústia, aflição, pena de Emanuel.
Queria mandar Flavio embora e correr atrás de Emanuel para tentar explicar o que aconteceu e poder dizer a ele que não era apaixonado pelo rapaz que tinha acabado de chegar.
Sentiu raiva de Flavio e sua chegada de surpresa, mas ele não percebeu.

Os primos na calçada olhavam aquela cena e também não entendiam nada. A eles, ela não tinha comentado sobre Flavio. Naquele momento, decidiu que ali não tinha mais razão para ficar.

Arrumou as malas e foi embora com Flavio para Angatuba. Lá chegando, Inara apresentou-os aos pais. Ele e o amigo jantaram com a família e tarde da noite voltaram a São Paulo.

Alguns dias depois, Inara também voltou a São Paulo. Um novo semestre de aula começaria.

No primeiro encontro com Flavio, Inara disse que não queria mais vê-lo. Surpreendeu-se com a reação dele que prontamente concordou com a decisão dela.

Teria ele desconfiando do ocorrido em Taquarituba? Ele estava estranho – pensou Inara.

Algum tempo depois, teve notícias de Flavio por meio do melhor amigo dele. Ele havia reatado com a ex-namorada.
Quando conheceu Inara, Flavio fez de tudo para se apaixonar por ela, para então esquecer a ex, que o tinha trocado por outro.
Inara se sentiu aliviada.

Lembrou-se da primeira impressão que teve quando o conheceu. Ele parecia triste e carente, mas nunca havia explicado o porquê. Agora ela entendia.

Dormiu mais tranquila naquela noite por saber que não o tinha machucado tanto e se tinha, ele já parecia curado.

Mas, e Emanuel? Como estaria? O que pensava ele daquilo tudo?

Ele não merecia isso, e eu não tive oportunidade de explicar. – pensava Inara tristemente.

Não chegaram a trocar os números de telefones de São Paulo.
Ele já não morava mais no mesmo endereço de anos atrás para onde ela mandava as cartas. Também não teve coragem de tentar descobrir o seu paradeiro por meio dos primos de Taquarituba.

Algumas perguntas continuaram martelando sua cabeça por muito tempo.

Por que essa coincidência cruelTerei oportunidade de explicar tudo isso a Emanuel um dia?

Próxima semana:
Capítulo 10
O noivado

História inspirada em fatos reais, embora alguns eventos, personagens, nomes e locais, tenham sido criados para a composição literária. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência. YG

 

 

 

2 comments on “INARA – capítulo 9 – Coincidência cruel”

  1. Maria ines dal borgo disse:

    Cada capitulo mais interessante!!!

    1. Yara disse:

      Maria Ines a primeira a ler os capítulos quando público.

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