INARA – capítulo 7 – Do interior para a cidade grande

foto: Light Fiel Stúdios

Inara, seguindo a vontade dos pais, foi fazer Faculdade de Música em São Paulo.

Uma das razões pela qual não ficou triste com a escolha deles, foi por ter de morar longe para estudar. Seus amigos faziam faculdade na cidade vizinha, Itapetininga. Viajavam todos os dias para assistirem às aulas. Ela achava aquilo uma chatice. Queria morar em outra cidade.

Sua vontade era ser médica, psiquiatra ou advogada. Piano, já havia estudado por tantos anos e isso para ela era mais uma distração que uma vocação. Não era uma virtuosa do teclado. Sentia que teria mais a oferecer às pessoas seguindo uma carreira diferente, a de musicista.

Ao comentar seu desejo com a māe ouviu:

– Você é ainda muito jovem para saber o que quer. Ao acabar os estudos de música em São Paulo, volta para ser professora no colégio onde estudou em Angatuba.

Inara ouviu calada e pensou: – “parece que meu destino já está traçado pelos meus pais. Mas algo me diz que isso nunca acontecerá.”
Uma voz interna claramente dizia: – “você nunca voltará a morar em Angatuba.”

Ao mesmo tempo em que estava animada com a mudança, sentia o medo de enfrentar o novo, a cidade grande, morar sozinha, eram muitos os desafios.

Seis meses antes da mudança, ela conheceu Ernesto, o rapaz que arrebatou seu coração de surpresa. Ela não sabia quem ele era. Ele a tinha visto em um baile da cidade. Nessa noite, ela estava acompanhada de um outro rapaz e ele não pôde chegar até ela. Inara vestia uma blusa branca cintilante com brilho azulado. A calça pantalona em malha de linha e um top branco com franjas fininhas que iam até o joelho. Estava linda. Ernesto se apaixonou à primeira vista. Passou a noite sentado, durante o baile, admirando-a e conversando com conhecidos para saber quem era ela. Inara nada percebeu.

Ele e a família tinham se mudado recentemente para uma fazenda perto da cidade. O pai dele era o engenheiro agrônomo responsável pelo reflorestamento daquele latifúndio. Família tradicional, Ernesto ainda bem jovem tinha o título de Visconde.

Naquela noite foi o primeiro evento social em que ele deixou a fazenda para participar. Junto com ele, estavam seus pais e amigos moradores da região.

Ele descobriu que Cida, amiga de sua mãe, conhecia a mãe de Inara.

Alguns dias, após aquela noite, Inara estava na loja da mãe ajudando-a. Fazia isso alguns dias na semana, quando Cida entrou. Inara a cumprimentou e foi logo dizendo:

– Minha mãe teve de sair, ela volta só daqui a meia hora.

– Não tem problema, eu vim aqui para entregar algo a você, disse Cida.

Inara, sem entender, olhou calada para Cida que explicou:

– Um rapaz, filho de uma amiga, está apaixonado por você e deseja conhecê-la.

– Quem? Eu o conheço? – perguntou Inara admirada.

– Ele a viu no baile da última semana e de lá para cá quis saber tudo sobre sua vida e família. Sabendo que eu viria aqui hoje, ele escreveu esta cartinha e pediu que entregasse a você. – completou Cida.

Inara, ainda sem entender, abriu o envelope e leu:

– “Inara, desde que te vi toda de branco naquele salão, não consegui tirá-la dos meus pensamentos. Quero ouvir sua voz, sentir seu perfume, tocar suas mãos, dançar com você. Quero muito conhecê-la. Você me fará muito feliz se aceitar encontrar-se comigo. Aguardo sua resposta, Ernesto.”

Ela gostou do que leu. Ficou tentada a encontrá-lo, mas lembrou que tinha namorado. Não era apaixonada por ele, tinha-o mais como um amigo. Como diziam na época era “um passatempo”.

Fechou o envelope e devolveu-o à Cida dizendo:

– Se ele me viu no baile, deve saber que eu tenho namorado. Não vou me encontrar com ele. Dê esse recado, por favor.

– Alguns dias depois, outro bilhete e na semana seguinte mais um.
Nem sei como ele é e não fui eu quem o escolheu. Não estou interessada.” -pensava ela.

Cada vez que Cida trazia um bilhete, contava um pouco mais da história de Ernesto e sua família. Dizia que ele, além de bonito, era muito culto, inteligente e de uma família tradicional de São Paulo. Aquilo foi aguçando sua curiosidade.

– Ele vai passar apenas seis meses na fazenda com os pais, pois está se preparando para fazer o vestibular de Administração de Empresas na Faculdade Getúlio Vargas. – completou Cida.

Esta última frase chamou a atenção de Inara. Já sabendo que em breve também se mudaria para São Paulo, seria interessante conhecer alguém por lá, nem que fosse só para amizade. Então disse:

– Diga que venha, vou me encontrar com ele.

Para não haver conflito, naquele mesmo dia, conversou com o namorado, que mudaria em breve para São Paulo, logo, seria melhor que terminassem o namoro, pois ela teria de focar nos estudos. “Assim estarei desimpedida, caso me sinta atraída por esse tal de Visconde Ernesto” – pensou.

No dia combinado, acompanhado de Cida e o motorista, Ernesto chegou à casa de Inara. A mãe havia preparado um jantar para receber os convidados. Ela e Cida estavam torcendo para que os dois se entendessem e quem sabe namorassem.

Ele chegou. Inara não saiu ao terraço da casa para recebê-lo. Deixou que todos se cumprimentassem à porta. Ficou na sala esperando. Estava um pouco apreensiva e tímida. Era a primeira vez que veria o rapaz pessoalmente e sabia do interesse dele por ela.

Quando ele entrou na sala, ela sentiu uma sensação boa. Ele era realmente muito bonito e elegante. Como ela admirava homens bem vestidos! Ela também desde pequena, por influência da mãe, proprietária de loja de roupas finas, aprendeu a se vestir bem.

Ernesto usava calça cinza, camisa rosa, blazer vinho e um lenço de seda no pescoço por dentro do colarinho da camisa semiaberta, nas cores rosa e vinho. Apesar de jovem, ele parecia mais velho com aquele traje formal, tinha um ar austero. Inara gostou do que viu.

Ele também tinha um olhar sorridente e ao mesmo tempo maroto. Aproximou-se dela com um ar de cumplicidade e a beijou na face dizendo:

– Finalmente!

Conversaram todos por um tempo na sala. Inara estava sem graça. Todos ali sabiam a razão principal daquele encontro, inclusive o pai que acompanhava tudo com um ar contrariado. Ele era ciumento, ela sabia.

Passaram para a mesa de jantar, a conversa estava animada. Ernesto com sua simpatia e bonita oratória, foi conquistando todos pouco a pouco. Contou sobre sua vida, sua família e quando falava sobre sua mãe, virou-se para Inara e disse:

– Minha mãe quer muito te conhecer. Inara ficou vermelha, não esperava que mais alguém tivesse interesse em conhecê-la.

O jantar transcorreu alegre e natural. Ao final, com todos ainda à mesa, numa atitude inesperada e firme que a impressionou, ele disse:

– Vamos continuar o papo no terraço nos dois?

O pai baixou a cabeça meio sem graça e Cida animadamente levantou dizendo:

– Isso, vão conversar os dois lá fora. Os jovens devem ter coisas mais interessantes para conversar que os coroas aqui. Cida continuava firme na função de cupido.

Inara levantou-se e ele a acompanhou.

No terraço, conversaram por mais de uma hora. Ela também contou de sua vida, seus sonhos e planos.

Ao saber que em breve ela se mudaria para São Paulo, ele disse com um sorriso iluminado:

– Pois então serei o seu protetor e guia em São Paulo. Vou levá-la pelas mãos para conhecer toda cidade. Você vai conhecer os melhores restaurantes. Que tal?

Inara sorriu confidente e ele não esperou a resposta, aproximou-se um pouco mais dela, fechou os olhos e a beijou.

Despediram-se naquela noite e combinaram que ele voltaria na tarde do dia seguinte.

Cada dia ele que vinha visitá-la, ela gostava ainda mais. Por ele sentia uma grande admiração, mas não sentia paixão, era um sentimento sereno. Ele, muito educado, simpático, carismático, inteligente e falante, entretinha-a com suas histórias e ela não sentia as horas passarem. Aprendia muito com ele. Ernesto a estimulava intelectualmente, fazia com que se interessasse por assuntos nunca antes debatidos com alguém.

Vários outros jantares aconteceram novamente na casa de Inara e na casa dele na fazenda. As famílias tornaram-se amigas. Nesses encontros também participavam amigos das famílias. Era uma festa semanal. A mãe de Ernesto tocava violão e cantava, alegrando a todos nesses momentos.

Muitas vezes Inara era convidada para passar o final de semana na fazenda. Ela também ficou amiga da irmã dele. Tinham mais ou menos a mesma idade.

O tempo foi passando e Inara esperava o momento da mudança para São Paulo ainda mais entusiasmada. Agora teria Ernesto como seu protetor e companheiro na cidade grande. Não sentiria mais medo.

Alguns dias antes da mudança, Ernesto avisa que viajará com o pai para São Paulo, para resolver assuntos do vestibular. Passariam uma semana por lá.

Despediram-se já cheios de saudade.

Quando voltaram da viagem, ela sentiu Ernesto diferente, frio e distante. Ela percebeu o que estava por vir, mas aguardou.

Na última visita, com um olhar triste, ele disse:

– Precisamos conversar.

– Eu já sei. – respondeu ela.

Ernesto continuou:

– Inara, aconteceu algo e eu preciso que você saiba. Quando viajei a São Paulo com meu pai, foi para reencontrar uma ex-namorada. Ela havia me deixado recentemente por outro rapaz, logo antes de eu me mudar para cá. Fiquei muito triste e decepcionado. Foi aí Inara, eu a te vi pela primeira vez e a ânsia em conquistá-la acalmou meu coração.

Comecei a receber cartas da ex, pedindo-me perdão e para voltarmos. Decidi conversar com ela pessoalmente. Ela já sabia de você.

Continuou Ernesto:

– A dor de ter sido abandonado foi maior que meu orgulho e também senti vontade de rever a ex para esclarecer os meus sentimentos confusos.
Ao encontrá-la, senti um misto de raiva e vitória. Não resisti. A dor da rejeição foi maior que meu sentimento por você e decidi reatar o namoro. Quero que me perdoe por não ter contado antes o que eu estava sentindo.

Inara, desapontada, pensou: – “ele está sendo tão honesto que chega a doer, tudo faz sentido agora. Por isso a insistência em me conquistar. Era seu ego machucado precisando encontrar alguém para esquecer a traição. Eu bem sei como é isso.

Imediatamente lembrou-se do que tinha feito com Emanuel e Nélson e parecendo conformada concluiu seu pensamento: – “aqui se faz, aqui se paga”.

Ficou triste mais pelo companheiro, protetor e guia, que tinha perdido. Novamente o receio de morar sozinha tomou conta dela.

Não perdeu o sono naquela noite e pela manhã ao acordar pensou: – “chegou a hora de virar a página e enfrentar o novo desafio.”

Estranhou não se sentir magoada e nem ter vontade vingar-se de Ernesto. O rompimento foi diferente, ele tinha sido honesto.
“Que bom me sentir assim, pois planos de vingança além de darem trabalho, custam caro”. – pensou.

Sabia que teria os dias bem movimentados nessa mudança radical de vida.
E as novidades iriam manter sua mente ocupada. Logo esqueceria Ernesto.

Em São Paulo, foi morar em uma casa grande, com muitos quartos. Era um pensionato, onde viviam 40 meninas. Elas ou estavam se preparando para o vestibular ou já cursavam a faculdade.

Sentia-se insegura por estar só no meio a tanta gente desconhecida.

À noite, demorava para dormir. Recordava tudo o que havia acontecido durante o dia: as amigas novas, colegas de escola e a maneira de viver na cidade grande. Sentia medo de dormir e ao acordar ter novamente de enfrentar os desafios do dia. Estava acostumada na cidade pequena a conhecer todos, desde criança. Agora, ninguém sabia quem ela era.

Resolveu fazer algo para se sentir mais segura. Comprou um maço de cigarros. Fumar agora não teria de ser escondido. Muitas meninas do pensionato e da faculdade, fumavam. Com um cigarro entre os dedos passaria uma imagem para os outros de ser dona de si e dos seus sentimentos. “Uma garota bem resolvida“. – pensava, com esperança.

O maço de cigarros durou mais de um mês e não trouxe segurança, somente tosse. Jogou fora e não comprou outro.
“É bom passar hein medo? Já me cansei de você, não temerei mais nada a partir de hoje”. – determinou. E a partir dali começou a ter os dias mais serenos, até que…

Notou que não ficava menstruada há vários meses. Algo errado estava acontecendo. Uma vez por semana falava com os pais pelo telefone e dessa vez, comentou com a mãe a preocupação. A mãe a tranquilizou dizendo:

– Fique atenta, quem sabe na semana que vem quando nós nos falarmos novamente, já estará tudo normalizado. Mais um mês se passou e nada.

A família preocupada, viajou a São Paulo, para acompanhá-la à consulta médica. Haviam marcado com Dr. Evaldo Foz em seu consultório no Hospital Osvaldo Cruz, onde ele era presidente da instituição. Dr. Evaldo era um grande amigo da família, principalmente de seu avô. Ele tinha uma linda fazenda perto de Angatuba onde ele, o pai e o avô de Inara, pescavam juntos quase todos os finais de semana.

Os pais chegaram a São Paulo e foram direto ao pensionato para ver Inara e levá-la à consulta.

A mãe ao ver a filha, abraçou e examinou-a da cabeça aos pés dizendo ao pai:

– Ela parece mais magra.

E Inara respondeu:

– Que nada mãe, até engordei, tenho comido muito chocolate. O pai dirigiu um olhar desconfiado para a mãe.

No consultório, após os cumprimentos iniciais, os pais ficaram na antessala e Inara ficou a sós com dr. Evaldo.

Após a confirmação de que era virgem, o médico pede para Inara sentar-se à mesa para conversarem. Em tom paternal ele disse:

– Minha filha, para mim você pode contar a verdade. Sabe que uma gravidez pode acontecer, mesmo que não tenha tido uma relação sexual com penetração. Conte-me o que aconteceu, eu posso te ajudar. Eu desconfio que você esteja grávida. 

Inara levou um susto, arregalou os olhos e em seguida com um sorriso confiante disse:

-Grávida, eu? Haha, só se for do Espirito Santo!

Ela tinha certeza que esse nāo era o caso. Nunca tinha tido relações mais íntimas com Ernesto. Aliás, nem com os outros namorados. Não que eles não tentassem ou que ela não desejasse. Mas Ernesto nunca tentou nada além dos beijos. Mesmo sendo namoradeira, ela havia decidido que casaria virgem. Era sua fidelidade aos pais. Sabia que eles tinham essa preocupação e não os decepcionaria tendo de casar porque estava grávida, como acontecia com algumas meninas da cidade.

Foi feito exame e comprovado que não era gravidez. O médico ficou aliviado ao dar a boa notícia para os pais. Outros exames foram feitos para verificar o que estava passando. Não encontrando nada anormal o médico concluiu que seria um problema de fundo emocional, que afetou os hormônios.

– “É o medo de enfrentar uma cidade grande sozinha”. – pensou, Inara.

Naquele instante ela determinou: – “Se o medo pode provocar prejuízos a minha saúde, agora não o terei mais.”

Alguns dias depois, após o uso da medicação prescrita pelo doutor Evaldo, a menstruação voltou ao normal.

Ela se sentiu vitoriosa pois provou novamente que não mentia. Os pais poderiam continuar confiando nela.

Agora, Inara estava pronta para viver com confiança o novo ciclo de vida.

“- Cidade grande… me aguarde!”

Próxima semana:
Capítulo 8
A Melhor Amiga

História inspirada em fatos reais, embora alguns eventos, personagens, nomes e locais, tenham sido criados para a composição literária. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência. YG

 

 

2 comments on “INARA – capítulo 7 – Do interior para a cidade grande”

  1. Maria ines dal disse:

    Este capitulo foi muito
    Bom e interessante. A Inara esta desabrochando sua verdadeira personalidade

    1. Yara disse:

      Obrigada Maria Ines. ???

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