INARA – capítulo 2 – Traição

Cidade do interior: bailinhos dos anos 70

Aos onze anos de idade, Inara teve seu primeiro namoradinho. 

Os pais nāo poderiam saber, pois ela ainda era muito nova para os namoricos.

Os encontros aconteciam escondidos na escola, nos intervalos das aulas, nos bancos da praça e nos finais de semana no cinema local.

Um dia, sentada no banco da praça com o namoradinho, o pai apareceu de repente, do nada.

Ele também nada falou, nem precisava. Com um simples gesto de cabeça, ordenou que ela o seguisse e os dois foram para casa. Lá chegando, ela tomou a primeira surra de cinto. Foi a primeira vez que viu o pai tāo bravo. 

Mas ele tinha um coração mole.

Algumas horas após a surra, ele veio conversar com Inara. Eram outros os assuntos, nenhuma palavra sobre o que havia ocorrido. Não era um pedido de desculpas; ela também não se sentia culpada.

Quando Inara preparou-se para dormir, o pai pegou um jornal, sentou-se numa cadeira ao lado da cama e ficou lendo até que ela dormisse. Fez isso por algumas noites seguidas. Talvez até passar o arrependimento da surra dada.

Alguns dias depois, outro flagrante e outra surra. O jornal do dia foi lido novamente até Inara adormecer.

Parar de namorar? Ela não queria. Preferia apanhar. 

O pai algumas vezes mandava Angélica, a irmã mais nova de Inara, vigiá-la no clube ao lado de sua casa, para ver se ela estava namorando.

Angélica fazia o que ele mandava. Via a irmã com o namorado, mas Inara a convencia de nāo contar nada para o pai. Angélica concordava pois temia que a irmã apanhasse novamente.

Um dia, o pai descobriu o acordo e as duas apanharam juntas. Nessa noite o jornal foi lido de cabo a rabo, esperando as duas filhas dormirem.

Passado algum tempo, o pai aceitou que tinha uma filha namoradeira e parou com a perseguição.

Inara era agora uma adolescente. Alegre, educada, doce por fora, mas por dentro ninguém a conhecia bem. Nem as melhores amigas, nem a família, nem ela mesma. Sempre muito extrovertida, mas ao mesmo tempo reservada quanto aos seus sentimentos e pensamentos.

Ela descobriu nessa época que também era vingativa e isso a deixou um pouco assustada.

Dizem que o signo de Escorpião tem essas características: namorador, passional, possessivo, controlador, ciumento e vingativo.

Pode ser culpa do signo, mas foi com esses ingredientes todos que sua personalidade foi se moldando.

Aos 15 anos, seu novo namorado chamava-se Nélson.

Ele era bem alto, magro, tinha a pele muito clara, cabelos também e os olhos azulados. Nāo era bonito, mas era charmoso, forte e tinha as mãos grandes. Era jogador de basquete, o melhor do time da cidade.

Durante o jogo, ele aparava a bola no ar com apenas uma mão, sem o suporte da outra. Inara adorava vê-lo jogar. Sentada na arquibancada com a torcida do time local, ela sentia orgulho em saber que ele, o cestinha do time, era o seu namorado.

Nas férias do mês de julho, ou do final do ano, a cidade ficava cheia de turistas, parentes e amigos das famílias que moravam em Angatuba. Eles também vinham das ricas fazendas ao redor da cidade.

A diversão entre os jovens era os bailinhos nos finais de semana no clube da cidade. Num desses bailinhos, ela estava esperando Nélson tirá-la para dançar.

Essa era a dinâmica: os meninos ficavam em grupo de um lado do salão e as meninas do outro, esperando que alguém viesse tirá-las para dançar.

Quem tinha namorado, esperava a música começar para que este viesse buscar a namorada e levar para o meio do salão.

Inara estava com saudades de dançar com Nélson.

Ele por ser muito alto e ela baixinha, a envolvia com os braços e o corpo durante a dança. Dançavam coladinhos. Ela encostava o rosto em seu peito, fechava os olhos e sentia a música romântica levá-los para longe, numa doce viagem.

Mas nesse dia a viagem não aconteceu.

Ao início de uma música romântica, ela olhou para o salão procurando por ele e, de repente, o viu dançando com outra.

– Com outra? Como? O que houve? Seria um pesadelo?

Ele dançava com uma moça mais velha que estava de férias na cidade. Também estavam bem coladinhos um no outro.

Isso nunca tinha acontecido antes. 

Quando acabou a música, ela viu Nélson voltando para a roda dos amigos. Iam até o bar e quando a orquestra recomeçava a tocar, ele ia novamente tirar a mesma moça para dançar. Era como se estivessem namorando.

E assim ele passou o restante da noite, dançando com a outra.

Inara tinha sido traída, completamente descartada, sem nenhum aviso na frente de todos os amigos.

Nelson a tinha machucado, profundamente. Era a primeira vez que ela tinha sido abandonada por um namorado. 

Em todos os outros anteriores, ela quem determinou o final do namoro. Só não os traía. Avisava antes quando estava de olho no próximo.

Se sentiu envergonhada, humilhada e não conseguia ter qualquer reação.

Depois de um longo tempo, passado o choque, com todas as amigas à sua volta observando qual seria a reação, Inara sem dizer uma palavra desde o ocorrido, levantou-se da cadeira, ergueu a cabeça e, sozinha, foi embora para a casa.

Nāo conseguiu dormir naquela noite. Passou em claro, lembrando da cena, às vezes chorando e pensando em tudo o que tinha acontecido.

Quando o dia amanheceu tomou uma decisão: “isso não vai ficar assim. Tenho que pensar numa maneira para me vingar de Nélson. Tão cedo não quero olhar para o ex-namorado, nem para os amigos. ”

Como a cidade era pequena, certamente encontraria com os amigos assim que saísse de casa. A não ser que não saísse. Mas estava de férias. Como ia fazer, se esconder?

Ninguém tinha que saber do seu sofrimento. O que fazer?

Então teve uma idéia.

Pela manhã, na mesa do café, Inara pediu aos pais para passar o restante das férias, em torno de vinte dias, em Taquarituba, numa cidade próxima, onde seus tios e primos moravam.

Os pais disseram que iam conversar.

Inara correu para ouvir a conversa dos pais atrás da porta do quarto.

Eles diziam:

– Ela teve novamente as melhores notas da classe este ano. Sempre estudiosa e aplicada, tem alunos de piano, ganha seu próprio dinheirinho. Acho que merece nossa confiança.

– Vamos permitir esse restante de férias em Taquartituba, disse o pai.

Era a primeira vez que ela ia viajar e dormir fora de casa sem a presença dos pais.

Ao sair do quarto, a mãe telefonou para a irmã em Taquarituba e tudo foi acertado.

Inara correu feliz para arrumar a mala. Pegou carona com o tio que estava de passagem na cidade naquele mesmo dia.

Tudo deu certo, ela estava animada para encontrar os primos e ficar distante do ex-namorado e dos amigos que assistiram o vexame da noite anterior.

Partiu de cabeça erguida, sorriso nos lábios.

Na estrada, ao chegar no alto da serra, olhou lá para baixo para a pequena Angatuba e pensou: “vou me vingar desse Nélson e vai ser em grande estilo!”

Esse era o plano, mas ela não sabia direito como iria fazer. Estava confiante de que no momento certo, saberia. Agora precisava acalmar os pensamentos, esfriar a cabeça e dormir pois não tinha pregado os olhos na noite anterior.

Conversou com tio por alguns minutos e caiu no sono profundo durante o restante da viagem.

Acordou na porta da casa dos tios. Os primos estavam reunidos, conversando na calçada.

Antes de sair do carro, pensou: “agora farei de conta que está tudo bem. Ninguém saberá o que aconteceu e nem o quanto estou triste. Vou esquecer por ora tudo o que aconteceu, depois pensarei na vingança.”

Próxima semana
Capítulo 3:
Emanuel

História inspirada em fatos reais, embora alguns eventos, personagens, nomes e locais, tenham sido criados para a composição literária. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência. YG

8 comments on “INARA – capítulo 2 – Traição”

  1. Maria Freitas disse:

    Yara Gouveia li os dois e compartilhei o de hoje em um grupo no Facebook mas não posso dar o Feed back pois você não pode ser marcadmarcada. Vou aguardar o próximo! Tentei mandar um comentário através de outra amiga mas ela também não pode ser marcada, a Jo
    Sidi, vou tentar mandar mensagem

    1. Maria Freitas disse:

      … não pode ser marcada…

    2. Yara disse:

      Ola Maria, não entendi onde não posso ser marcada, no facebook? Somos amigas la? Me avisa se eu puder fazer alguma coisa. Obrigada beijos

  2. Maria ines bbbb dal borgo disse:

    Continua uma narrativa muito agradável e bem detalhada !! Muito bom

    1. Yara disse:

      Obrigada Maria Ines. Beijos

  3. Maria Fulfaro disse:

    Esse Nelson que se cuide !!! ♥️

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